São Paulo, Julho de 2026 – A inteligência artificial evolui mais rápido do que muitas empresas conseguem absorver. Em 2026, o vibe coding já faz parte do dia a dia do comércio exterior, da área fiscal, tributária, financeira e principalmente da TI, permitindo que profissionais de negócio criem soluções aparentemente funcionais em poucas horas.
O problema é que “funcionar hoje” não significa “ser sustentável amanhã”.
Durante décadas, as empresas conviveram com planilhas paralelas criadas para resolver urgências operacionais. Elas funcionavam enquanto o colaborador responsável permanecia na empresa. Quando ele saía, levava consigo o conhecimento, a lógica do processo e a capacidade de manutenção. Os agentes de IA criados sem governança tendem a repetir exatamente esse modelo.
O risco não é apenas técnico. É estratégico. Um profissional pode desenvolver agentes em sua própria infraestrutura, utilizando dados, regras de negócio e conhecimento acumulado dentro da empresa. Ao sair, ele leva a “inteligência operacional” junto, criando dependência, dificuldade de evolução e potencial exposição de informações sensíveis ao mercado.
É por isso que IA corporativa não pode nascer fora das diretrizes de TI, segurança e compliance de cada organização. Agentes que interpretam documentos, tomam decisões ou automatizam processos precisam ser homologados, versionados, auditáveis e oficialmente integrados ao parque de softwares da empresa.
Na DigiComex, adotamos exatamente essa abordagem. Nossos agentes de IA são parametrizados de forma exclusiva para cada cliente, respeitando políticas de segurança, LGPD, compliance e arquitetura de TI. Isso permite automatizar processos críticos — como recebimento, leitura, digitação e conferência de Packing Lists, BLs, AWBs, instruções de embarque, Proforma Invoices e Commercial Invoices — sem criar dependência de um colaborador específico ou de ferramentas externas não homologadas.
Além da automação documental, os agentes são conectados oficialmente ao PUCOMEX, DU-e, DUIMP, ERPs e demais fontes corporativas de dados, garantindo rastreabilidade em tempo real, continuidade operacional e manutenção evolutiva dos processos ao longo do tempo.
A diferença entre um “agente improvisado” e uma “IA corporativa” aparece justamente quando o cenário muda. Conflitos geopolíticos, como tensões no Estreito de Ormuz, podem afetar o Canal de Suez, elevar os fretes internacionais, pressionar o preço do petróleo e gerar instabilidade cambial no mundo todo. Em um contexto de eleições presidenciais no Brasil e guerras tarifárias globais, antecipar impactos sobre custos logísticos, dólar, prazos de embarque e disponibilidade de rotas deixa de ser um diferencial tecnológico e passa a ser uma necessidade de gestão.
A verdade é que o mercado vive um dos maiores índices de rotatividade de sua história. Profissionais mudam de empresa com frequência, são promovidos, empreendem ou simplesmente recebem propostas mais atraentes, fazendo com que o turnover transforme IA em passivo tecnológico, ou seja, se com planilhas, isso já era um problema, agora com IA, o impacto é muito maior porque profissionais podem desenvolver agentes em sua própria infraestrutura, utilizando contas pessoais, chaves de API particulares e conhecimento acumulado ao longo dos anos dentro da empresa. Ao sair, esses profissionais não levam apenas um arquivo, mas levam a lógica, o contexto, os ajustes finos e o histórico de decisões que fazem aquela IA funcionar de forma adequada.
É o que costumo chamar de “vender o próprio passe tecnológico”.
O profissional pode, legitimamente ou não, reutilizar parte do conhecimento adquirido para atender concorrentes. E aí surge uma pergunta incômoda para qualquer CIO ou diretor: quem será o mentor técnico capaz de orientar a manutenção e a evolução desses agentes quando o criador não estiver mais na empresa?
Sem contar o risco de vazamento estratégico que é real porque quando um agente de IA é criado fora dos padrões corporativos, a empresa pode perder controle sobre:
- contratos;
- preços;
- margens;
- estratégias comerciais;
- classificações fiscais;
- dados de clientes;
- informações de supply chain;
- documentos aduaneiros;
- projeções financeiras;
- políticas internas.
Para se ter uma ideia, segundo a IBM Cost of a Data Breach Report 2025, o custo médio global de uma violação de dados chegou a US$ 4,44 milhões, reforçando que governança e controle sobre informações corporativas são temas críticos para qualquer iniciativa de IA. Fonte oficial: IBM Cost of a Data Breach Report 2025 .
O mercado continuará investindo pesadamente em inteligência artificial, mas a maturidade das empresas será medida por outro fator: a capacidade de transformar IA em um ativo corporativo estruturado, e não em mais um controle paralelo invisível.
A verdadeira pergunta não é se a IA vai automatizar processos porque isso já é realidade, mas sim: sua empresa está criando agentes que continuarão gerando valor daqui a cinco anos ou apenas uma nova geração de planilhas paralelas digitais que ninguém saberá manter quando os especialistas forem embora?
João Abussamra Neto Sócio-fundador e Diretor Técnico da DigiComex e fundador da Bergen, vendida para a Vastera/JPMorgan no primeiro exit de comex-tech do Brasil, em 2002. Formado em Tecnologia em Processamento de Dados pela FATEC (UNESP), com extensão universitária pela UNICAMP, atua há mais de quatro décadas no desenvolvimento de soluções corporativas para comércio exterior, logística e integração de sistemas.
